Felippe Alfredo Wendling
Pinhal Alto, 9 de maio de 1908 · Dois Irmãos, 28 de outubro de 1993
Dentista que largou o consultório para pôr um ônibus na estrada. Um dos nove homens da comissão que, em 1959, fez de Dois Irmãos um município. Patrono de escola. E o avô que deu nome, e jeito de trabalhar, à imobiliária que hoje o neto conduz.
O dentista que virou empresa
Felippe Alfredo Wendling nasceu em Pinhal Alto, interior de Nova Petrópolis, em 9 de maio de 1908, filho de agricultores. Saiu de casa cedo para estudar no seminário de Bom Princípio e, aos 18 anos, formou-se dentista prático em Porto Alegre. Com o diploma na mão, escolheu Dois Irmãos, então a pequena Baumschneis, para viver e trabalhar. Atendia na cidade e, quando o paciente estava longe, ia até ele na garupa de um cavalo, pelo interior de Santa Maria do Herval.
Casou-se aos 20 anos com Catharina Wingert. Tiveram oito filhos: Normélio, Elu, Terezinha, Maria Nelsi, José Ênio, Aloisio, Iara e Maria Denise. Todos criados e estabelecidos na cidade.
Aos 31 anos, um problema de saúde o obrigou a largar a odontologia. Com uma família grande para sustentar, procurou um amigo, Willy Grin, propôs sociedade e os dois compraram um chassi Chevrolet novo, sobre o qual mandaram construir uma carroceria de madeira. Em 1º de abril de 1938 a linha começou a rodar. O livro de história da cidade registra que ele "tinha uma visão clara de nosso futuro": naquele tempo, todas as estradas eram de chão batido e, em dia de chuva, simplesmente não havia como viajar.
O que veio depois foi trabalho. Linha até Porto Alegre em 1939. Herval a São Leopoldo em quatro horas de viagem, no início dos anos 40. Durante a guerra, com a gasolina racionada, os ônibus andaram a gasogênio, queimando tacos de lenha que o filho Normélio cortava todos os dias. Em 1944 a sociedade com Grin se desfez e a Wendling seguiu com quatro ônibus. Em 1946 abriu a linha de Canela e Gramado; comprou as linhas de Picada Café e de Pinhal Alto nos anos seguintes. Normélio foi cobrador aos 14 e motorista aos 18. Em 1960 a firma virou a Empresa Wendling de Transporte Coletivo Ltda., com os filhos dentro do negócio. É a mesma empresa que, até hoje, leva o nome da família pelas estradas da região.
Um dos nove que fizeram o município
Nos anos 50, Dois Irmãos era um distrito de São Leopoldo: pagava imposto e via pouco voltar em estrada, escola e serviço. De uma assembleia com a população saiu uma comissão emancipacionista, reconhecida pelo governo do Estado para conduzir o processo. Felippe Alfredo era um dos nove.
O caminho não foi curto. Houve plebiscito em 15 de novembro de 1958, com voto favorável nos distritos. Houve entrave jurídico, e a comissão foi a Porto Alegre buscar apoio de Francisco Brochado da Rocha, que ajudou a aprovar na Assembleia uma lei nova para viabilizar a emancipação. Em 10 de setembro de 1959, o governador Ildo Meneghetti assinou a lei que criou o município. Dez dias depois a cidade elegia seu primeiro prefeito, Justino Antônio Vier, companheiro dele na comissão e, décadas mais tarde, autor do livro que conta essa história.
- Felippe Alfredo Wendling
- Alberto Meurer
- Albino Pedro Ellwanger
- Algemiro Fleck
- Felippe Seger Sobrinho
- Guilherme Bertholdo Becker
- João Klauck
- José Victor Rausch
- Justino Antônio Vier
Dois Irmãos comemora o aniversário do município em 10 de setembro. O nome de cada um desses nove homens está ligado a essa data.
Linha do tempo
- 1908
Nasce em Pinhal Alto, interior de Nova Petrópolis, filho dos agricultores Antônio Wendling e Maria Müller. Sai de casa cedo para estudar no seminário de Bom Princípio.
- 1926
Aos 18 anos, forma-se dentista prático pelo Curso Casa Sênior, em Porto Alegre, e se muda para Dois Irmãos. Atende na cidade e segue a cavalo até o interior de Santa Maria do Herval.
- 1928
Casa-se com Catharina Wingert. Um ano depois nasce Normélio, o primeiro dos oito filhos que criaram na cidade.
- 1938
Por um problema de saúde, deixa a odontologia. Em 1º de abril, com o sócio Willy Grin, compra um chassi Chevrolet novo, manda construir a carroceria de madeira e nasce a linha de ônibus que a cidade passa a chamar de Wendling.
- 1939 a 1944
Linha Dois Irmãos a Porto Alegre, duas a três vezes por semana; depois Herval a São Leopoldo, quatro horas de estrada de chão. Na guerra, os ônibus rodam a gasogênio, com lenha cortada em casa. Em 1944 a sociedade se desfaz e a Wendling segue sozinha, com quatro ônibus.
- 1946 a 1953
Novas linhas até Canela, Gramado e Nova Petrópolis; compra das linhas dos Mallmann (1948) e de Albano Hansen (1953). Quando precisava de crédito, recorria às Caixas Rurais da época.
- 1958 a 1959
Integra a comissão emancipacionista de nove moradores. Plebiscito em 15 de novembro de 1958; em 10 de setembro de 1959, o governador Ildo Meneghetti assina em Porto Alegre a lei que cria o município de Dois Irmãos.
- 1960
A firma vira Empresa Wendling de Transporte Coletivo Ltda. Os filhos entram no negócio, que ganha frota de caminhões, posto e loja de pneus.
- 1970
Recebe do então prefeito Léo Klauck o diploma "Amigo dos Professores", pelo apoio constante às escolas da cidade.
- 1993
Morre em 28 de outubro, aos 85 anos, em Dois Irmãos.
- 1995
Em 2 de abril, a escola municipal do bairro Bela Vista é fundada com o nome dele, homenagem da Prefeitura ao serviço prestado ao município.
Acervo da família
Fotos guardadas pela família, digitalizadas para esta página.









Amigo dos professores
A empresa tomava tempo, e ele não deixou a comunidade por isso. Da educação cuidou com empenho especial: transportava de graça os alunos do interior de Morro Reuter e Santa Maria do Herval para o desfile de 7 de Setembro e pagava, todo ano, um almoço aos professores do município. Nunca negou ajuda às escolas da cidade, e em 1970 recebeu do prefeito Léo Klauck o diploma "Amigo dos Professores". Em 1995, dois anos depois da morte dele, a Prefeitura deu o seu nome à escola municipal do bairro Bela Vista. A EMEF Felippe Alfredo Wendling segue em atividade, com centenas de alunos, da educação infantil ao nono ano.
Sempre foi uma pessoa sincera, jamais falando por meias palavras. Segundo ele, a verdade, por mais que desagradasse, deveria ser dita; e em momento algum deixou de auxiliar a quem precisasse, pois o ser humano infortunado estava acima das riquezas materiais.
Justino Antônio Vier, "História de Dois Irmãos: Passado e Presente" (1999), p. 204
O que ficou dele
Sem meia palavra, mesmo quando desagrada. É o traço que o livro da cidade escolheu para resumi-lo.
De um ônibus de madeira a uma empresa que a família mantém há mais de oitenta anos.
Ajudou a fundar o município e nunca deixou de participar da vida da cidade.
Ajudava quem precisava. Para ele, a pessoa em dificuldade vinha antes da riqueza material.
Por que a imobiliária se chama Felippe Alfredo
A Felippe Alfredo Imobiliária é conduzida por Lucas Wendling, neto de Felippe Alfredo, corretor de imóveis e avaliador (CRECI/RS 46.117, CNAI 10.608). O nome foi uma escolha, não uma coincidência: é um compromisso público com o modo de trabalhar do avô.
Na prática, isso significa dizer ao proprietário o valor real do imóvel, e não o que ele gostaria de ouvir. Explicar ao inquilino cada cláusula antes de assinar. Atender no escritório da Av. Porto Alegre, em Dois Irmãos, com gente que você encontra na rua no dia seguinte. E cuidar de cada imóvel como se fosse o da própria família, porque, em uma cidade deste tamanho, o nome que está na porta é o mesmo que está na certidão de nascimento.
Fontes: Justino Antônio Vier, "História de Dois Irmãos: Passado e Presente" (1999), páginas 142 a 144 e 204; Jornal Dois Irmãos, "10 de setembro de 1959: a história da emancipação de Dois Irmãos" (2024) e "Escola Municipal Felippe Wendling completou 26 anos de história" (2021); Perla Goulart, Denise Hubler Ferreira e Maria Cristiane Couto, "Felippe Alfredo Wendling: um incentivador da educação", Revista Palavra de Educador, 11ª ed. (2024); histórico da Empresa Wendling de Transporte Coletivo. Fotografias do acervo da família Wendling.
